sexta-feira, 14 de outubro de 2011

"TIVE FOME E ME DESTE DE COMER (PARTE 1)

A pessoa precisa ser encarada como imagem e semelhança de Deus o que não acontece no mundo frio e individualista em que vivemos, onde as pessoas são elementos descartáveis. Precisamos reaprender o valor da pessoa e vê-Ia do mesmo modo em que é tratada por Deus na Bíblia, lembrando-nos de que o maior mandamento não é apenas "Amarás a Deus de todo o teu coração", mas, conforme Jesus afirmou, inclui conjuntamente "Amarás o próximo como a ti mesmo" (Mt 22.38-40). Esse ensinamento já estava presente no AT em diversas passagens, embora não com a elaboração que Jesus lhe deu (Lv 19.18; Dt 19.11-13; Pv 3.28,29; 11.9).

O SER HUMANO: UM SER-COM-OS-OUTROS
O relato bíblico da criação mostra que o projeto divino era perfeito, não havia falhas: "E viu Deus tudo quanto fizer e eis que era muito bom" (Gn 1.31). Notamos, entretanto, em Gênesis 2.18-24, que o homem não permaneceu sozinho na criação. O relato da formação da mulher não ensina apenas que o homem precisa de alguém do sexo feminino ao seu lado, mas esse relato quer nos mostrar também que ninguém foi feito para viver em solidão. O ser humano é um ser que se relaciona com os outros e que, sem os outros, é incompleto.

O SER HUMANO E O SEU VALOR
O cristianismo ressalta valor do ser humano não só para Deus como também para Os demais seres humanos. Por ser "imagem e semelhança de Deus” a alma (pessoa) humana vale mais do que qualquer bem ou posses (Mc 8.36). Os seres humanos são tão preciosos para Deus que Jesus veio ao mundo para salvá-los (Jo 3.16,17). Por isso, a sociedade, numa perspectiva cristã, deve ser marcada pelos princípios da justiça e da solidariedade, viabilizando o respeito à dignidade do ser humano e possibilitando o seu desenvolvimento integral. O ideal cristão é incompatível com a escravidão e a opressão, literal ou figurada, em quaisquer esferas da existência humana. Nesse aspecto, o cristianismo posiciona-se pelo respeito ao homem criado à imagem e semelhança de Deus. Por causa do valor do ser humano, o cristianismo não pode concordar com nenhum tipo de injustiça social. O oprimido é roubado dos seus direitos fundamentais enquanto ser humano valorizado por Deus, e qualquer ponto de vista que avilte o próximo está diretamente em oposição a Deus e é essencialmente diabólico.

JESUS E O SER HUMANO NECESSITADO
Jesus procurava aliar as dimensões vertical e horizontal nos relacionamentos. O amor a Deus implicaria amor ao próximo, e o amor ao próximo estaria fundamentado na relação pessoal com Deus. O ensino de Jesus enfoca o respeito ao ser humano como valor acima das posses materiais ou das estruturas religiosas e sociais. Falando acerca do cuidado de Deus pelo ser humano, ele diz: "Mas até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois mais valeis vós do que muitos passarinhos (..) Considerai os corvos, que não semeiam nem ceifam; não têm despensa nem celeiro; contudo, Deus os alimenta. Quanto mais não valeis vós do que as aves!' (Lc 12.7,24). E quando astuciosamente testado pelos fariseus quanto à cura no dia de sábado, Jesus declarou o valor do ser humano acima das instituições e tradições religiosas: "(...) e eles, para poderem acusar a Jesus, o interrogaram, dizendo: É lícito curar nos sábados? E ele lhes disse: Qual dentre vós será o homem que, tendo uma só ovelha, se num sábado ela cair numa cova, não há de lançar mão dela, e tirá-Ia? Ora, quanto mais vale um homem do que uma ovelha! Portanto, é lícito fizer bem nos sábados" (Mt 12.10-12).

 Na verdade, para Jesus, as próprias necessidades básicas do ser humano, como a alimentação, eram consideradas superiores e mais importantes do que qualquer preservação de tradições ritualísticas: "Ele, porém, lhes disse: Acaso não lestes o que fez Davi, quando teve fome, ele e seus companheiros? Como entrou na casa de Deus, e como eles comeram os pães da proposição, que não lhe era lícito comer, nem a seus companheiros, mas somente aos sacerdotes?" (Mt 12.3,4).

 Como os evangelistas deixam claro, Jesus via a relação entre as pessoas como extensão da relação com Deus; por isso, a nossa atitude deve ser de um amor comprometido e engajado. Isto está evidenciado na parábola do "Bom samaritano" (Lc 10.25-37), que foi contada para responder à pergunta acerca de quem deveríamos considerar como o nosso próximo, ao qual também deveríamos amar. Assim, Jesus propõe a participação de cada pessoa na construção de um mundo mais justo e equitativo. Para Jesus, a valorização e o envolvimento com o outro devem suplantar as discriminações e os preconceitos de qualquer tipo. Um cristianismo que não move um dedo sequer para minimizar a dor e a fome do mundo nem demonstra se importar com elas não é verdadeiramente o cristianismo de Jesus. 

Em Cristo,
Edmilson Santos

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